Por dentro da Caverna de Platão
Em 427 a.C. nascia, em Antenas, Platão, grande filósofo
grego que ficou conhecido mundialmente por seus pensamentos e reflexões. O
diálogo entre Sócrates e Glauco em “A Alegoria da Caverna”, texto de sua
autoria que se encontra no sétimo livro da obra “A República”, nos leva a
refletir sobre a sociedade, partindo de uma posição totalmente diferente da
qual estamos acostumados a ocupar, essa nova visão de mundo discutiremos na próxima
postagem, pois antes teremos a seguir um trecho do texto sobre esse mito da
caverna, para melhor compreensão do que iremos pensar.
Sócrates: Agora
imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de
acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, pois, homens que vivem em uma
morada subterrânea em forma de caverna. A entrada se abre para a luz em toda a
largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados
pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a
cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que
queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um
caminho que sobe. Imagine que esse caminho é cortado por um pequeno muro,
semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o
público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo.
Glauco: Entendo
Sócrates: Então,
ao longo desse pequeno muro, imagine homens que carregam todo o tipo de objetos
fabricados, ultrapassando a altura do muro; estátuas de homens, figuras de
animais, de pedra, madeira ou qualquer outro material. Provavelmente, entre os
carregadores que desfilam ao longo do muro, alguns falam, outros se calam.
Glauco: Estranha
descrição e estranhos prisioneiros!
Sócrates: Eles
são semelhantes a nós. Primeiro, você pensa que, na situação deles, eles tenham
visto algo mais do que as sombras de si mesmos e dos vizinhos que o fogo
projeta na parede da caverna à sua frente?
Glauco: Como isso
seria possível, se durante toda a vida eles estão condenados a ficar com a
cabeça imóvel?
Sócrates: Não
acontece o mesmo com os objetos que desfilam?
Glauco: É claro.
Sócrates: Então,
se eles pudessem conversar, não acha que, nomeando as sombras que vêem,
pensariam nomear seres reais?
Glauco:
Evidentemente.
Sócrates: E se,
além disso, houvesse um eco vindo da parede diante deles, quando um dos que
passam ao longo do pequeno muro falasse, não acha que eles tomariam essa voz
pela da sombra que desfila à sua frente?
Glauco: Sim, por
Zeus.
Sócrates: Assim
sendo, os homens que estão nessas condições não poderiam considerar nada como
verdadeiro, a não ser as sombras dos objetos fabricados.
Glauco: Não
poderia ser de outra forma.
Sócrates: Veja
agora o que aconteceria se eles fossem libertados de suas correntes e curados
de sua desrazão. Tudo não aconteceria naturalmente como vou dizer? Se um desses
homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a
andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele
ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as
sombras anteriormente. Na sua opinião, o que ele poderia responder se lhe
dissessem que, antes, ele só via coisas sem consistência, que agora ele está
mais perto da realidade, voltado para objetos mais reais, e que está vendo
melhor? O que ele responderia se lhe designassem cada um dos objetos que
desfilam, obrigando-o com perguntas, a dizer o que são? Não acha que ele
ficaria embaraçado e que as sombras que ele via antes lhe pareceriam mais
verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco:
Certamente, elas lhe pareceriam mais verdadeiras.
Sócrates: E se o
forçassem a olhar para a própria luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que
ele viraria as costas e voltaria para as coisas que pode olhar e que as
consideraria verdadeiramente mais nítidas do que as coisas que lhe mostram?
Glauco: Sem
dúvida alguma.
Sócrates: E se o
tirarem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não
o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, ele não sofreria e se irritaria
ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados
pelo brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objetos, que nós afirmamos
agora serem verdadeiros.
Glauco: Ele não
poderá vê-los, pelo menos nos primeiros momentos.
Sócrates: É
preciso que ele se habitue, para que possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele
distinguirá mais facilmente as sombras, depois, as imagens dos homens e dos
outros objetos refletidas na água, depois os próprios objetos. Em segundo
lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as constelações e o próprio céu,
e voltar o olhar para a luz dos astros e da lua mais facilmente que durante o
dia para o sol e para a luz do sol.
Glauco: Sem
dúvida.
Sócrates:
Finalmente, ele poderá contemplar o sol, não o seu reflexo nas águas ou em
outra superfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o sol tal como é.
Glauco:
Certamente.
Sócrates: Depois
disso, poderá raciocinar a respeito do sol, concluir que é ele que produz as
estações e os anos, que governa tudo no mundo visível, e que é, de algum modo a
causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.
Glauco: É
indubitável que ele chegará a essa conclusão.
Sócrates: Nesse
momento, se ele se lembrar de sua primeira morada, da ciência que ali se
possuía e de seus antigos companheiros, não acha que ficaria feliz com a
mudança e teria pena deles?
Glauco: Claro que
sim.
Sócrates: Quanto
às honras e louvores que eles se atribuíam mutuamente outrora, quanto às
recompensas concedidas àquele que fosse dotado de uma visão mais aguda para
discernir a passagem das sombras na parede e de uma memória mais fiel para se
lembrar com exatidão daquelas que precedem certas outras ou que lhes sucedem,
as que vêm juntas, e que, por isso mesmo, era o mais hábil para conjeturar a
que viria depois, acha que nosso homem teria inveja dele, que as honras e a
confiança assim adquiridas entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não
pensaria antes, como o herói de Homero, que mais vale “viver como escravo de um
lavrador” e suportar qualquer provação do que voltar à visão ilusória da caverna
e viver como se vive lá?
Glauco: Concordo
com você. Ele aceitaria qualquer provação para não viver como se vive lá.
Sócrates: Reflita
ainda nisto: suponha que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo
lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao
vir diretamente do sol?
Glauco:
Naturalmente.
Sócrates: E se
ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição
com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está
confusa, seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo
curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? Os
prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista
perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar
os seus laços, fazê-los subir, você acredita que, se pudessem agarrá-lo e
executá-lo, não o matariam?
Glauco: Sem
dúvida alguma, eles o matariam.
Sócrates: E
agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que
dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à
estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à
subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão
da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já
que desejas conhecê-la. Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja
fundada sobre a verdade. Em todo o caso eis o que me aparece tal como me
aparece; nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a idéia do Bem,
que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é
a causa de tudo o que há de reto e de belo. No mundo visível, ela gera a luz e
o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que dispensa a
verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se
com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.
Glauco: Tanto
quanto sou capaz de compreender-te, concordo contigo.
Referência: A Alegoria da caverna: A Republica, 514a-517c
tradução de Lucy Magalhães. In: MARCONDES, Danilo. Textos Básicos de Filosofia:
dos Pré- socráticos a Wittgenstein. 2a ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
2000.
Fonte:

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